Segunda-feira, 13 de Agosto de 2012

Leviathan de Scott Westerfeld




Título: Leviathan
Data de Publicação: 2009

Embora já tivesse lido alguns livros com influência steampunk, a trilogia Leviathan de Scott Westerfeld foi o primeiro trabalho em que peguei sabendo de antemão que se inseria neste género e com a intenção de o ver explorado (li a edição original, em inglês, embora entretanto já esteja disponível a tradução para português que tanto a Sofia como a Joana têm para ler). A história insere-se numa Europa do início séc. XX, mesmo antes da 1ª Grande Guerra, em que os países se dividem em alianças de acordo com a tecnologia a que recorrem. Os "clankers" são os países em que tudo usa energia a vapor, grandes máquinas metálicas e zeppelins - Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Os "darwinistas" recorrem a animais modificados - "fabricated" - que substituem as necessidades de máquinas a vários níveis - a Grã-bretanha, a França e a Rússia. De referir que nesta realidade Darwin não só definiu a teoria da evolução como descobriu o DNA abrindo assim o caminho à investigação genética que originou os "fabs". A exploração deste mundo é conseguida pelas aventuras das duas personagens principais, um jovem austríaco em fuga e uma rapariga inglesa que consegue entrar para a força aérea sob disfarce, fazendo-se de rapaz. Ao longo do livro observamos o desenrolar da história intermitentemente pelo ponto de vista de cada um deles, o que em certas alturas se torna muito engraçado e permite passar algumas mensagens com naturalidade e que de outra forma teriam que ser forçadas ao leitor.


O melhor de Leviathan parece, a principio, a invenção desta Europa e destas duas facções de forma a emular as guerras mundiais. Mas ao longo dos 3 livros, o que me fica na memória é a invenção das criaturas dos darwinistas. Não só é interessante a imaginação de uma criatura credível para cada necessidade humana daquele tempo, é especialmente bom o facto de o autor não se ter limitado a inventar espécies baseadas na realidade, mas de ter ido mais além, mostrando o seu funcionamento e a forma como os humanos as controlam. É grande a tentação de descrever aqui uma delas, mas prefiro que tenham o prazer que eu tive ao descobrir os pormenores durante a leitura. Quanto às personagens, há coisas boas e más a dizer. Se a Deryn se torna muito mais do que o cliché da menina que quer ter direito ao mesmo que os homens e de facto dá vontade de seguir, o Alex (Príncipe Aleksandar) é para mim mais duvidoso. Se por vezes fico curioso para vê-lo a reagir a tudo o que lhe vai acontecendo, em certos momentos ele parece mudar de opinião de acordo com o que dá jeito ao argumento. De referir que há algumas personagens secundárias - como o Conde Volger e a Drª. Barlow - bastante bem desenvolvidas, com personalidades e motivações próprias, que enriquecem e muito a história. É igualmente notável o cuidado do autor em criar diferenças importantes não só nas crenças e formas de estar, como nas palavras e expressões utilizadas pelas pessoas das diferentes culturas (p. ex. "barking spiders"),e de mostrar as próprias personagens a reagir a essas diferenças. Por último, uma referência às ilustrações de Keith Thompson, das quais partilho aqui exemplos (da sua conta no deviantART). Não sendo essenciais à história, boas ilustrações como estas trazem um valor acrescentado à obra, permitem um descanso na leitura e, no meu caso, por vezes perder-me na minha imaginação e a partir de uma delas viajar eu próprio através do mundo criado por Scott Westerfeld.


Focando o meu comentário no primeiro livro, ele constitui o principal momento de contacto com este mundo, sem no entanto recorrer a períodos demasiado prolongados de descrição que poderiam afastar alguns potenciais leitores. O desenvolvimento da história é essencialmente character driven, sem esquecer o importante contexto de guerra mundial iminente, embora este se venha a tornar mais preponderante para o final da trilogia. Nesta parte da história acompanhamos Deryn na sua emancipação em relação às expectativas da família e ao papel esperado de uma rapariga na sociedade vitoriana que, com a ajuda do irmão, consegue entrar na força aérea inglesa. Entretanto Alex está em fuga após o homicídio dos seus pais - Sophie e Franz Ferdinand - com uma pequena companhia de homens leais. Quanto a esta viagem de Alex há duas coisas que não posso deixar de focar, a credibilidade da fuga, que por vezes lembra uma boa história de espionagem, e a evolução pessoal de Alex, não só pela fuga mas também porque o autor o vai colocando em situações da vida real, em que ser nobre e educado não são mais do que problemas para a personagem. A escrita não é especialmente elaborada, sem grandes aparentes subterfúgios da linguagem, em geral clara e directa ao ponto embora mantendo as especificidades culturais no que toca aos diálogos.

Não sendo uma obra incomparável ou imprescindível, é um trabalho interessante ao nível da imaginação e do tratamento de assuntos como a desigualdade entre os sexos, a ética em relação aos animais, as guerras de interesses que regem o mundo e no entanto de leitura leve, fácil e agradável. Assim sendo, esta parece-me ser uma trilogia que merece ser experimentada por fãs de ficção científica de qualquer idade, em especial os fãs de  world building, steampunk e especulação científica biológica.


Classificação:


Se por esta altura ainda não estão convencidos a ler, deixo-vos com o trailer legendado em português:


"Do you oil your war machines? Or do you feed them?"

7 comentários:

  1. Já li uma outra série do autor e gostei bastante das suas ideias e de como ele as explora. Nesta trilogia o que realmente me chama a atenção é sobretudo essas criaturas modificadas.

    Então os livros sempre são ilustrados? Tinha algumas dúvidas que o fossem. Também tem o mapa com os países darwinistas como animais e os clankers como máquinas?

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    1. Aproveito as tuas questões para deixar aqui o link para a página do Scott Westerfeld - http://scottwesterfeld.com/ - onde entre outras coisas ele fala dos seus livros, mostra algumas das ilustrações e dá novidades quanto a próximos trabalhos. Para os interessados, até está disponível o primeiro capítulo do Leviathan para ler em pdf e também partes dos audiobooks!

      De resto, os livros são de facto ilustrados (e bem!) e incluem o dito mapa, não sei se em todas as edições - quanto a isto, a Sofia e a Joana poderão verificar como são as edições traduzidas para te informar melhor.

      Dá uma oportunidade ao Leviathan e depois diz-nos o que achaste!

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    2. Eu até dava uma hipótese aos audiobooks, mas não devem trazer imagens... O_o

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  2. Tenho os três na estante à minha espera, não percebo porque é que ainda não lhes peguei. Talvez com esta tua opinião seja o empurrãozinho para os ler a seguir.

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  3. André,

    Gostei bastante da tua resenha! Parece-me um trabalho fascinante, e vai direitinho para a minha lista to-read. O modelo do conworld, assente em diferentes especializações tecnológicas, parece-me muito bem conseguido. :)

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