Segunda-feira, 30 de Julho de 2012

A Volta ao Mundo em Oitenta Dias de Jules Verne



Título: Around the World in Eighty Days (Le Tour du monde en 80 jours)
Autor: Jules Verne
Data de Publicação: 1873

Já há demasiado tempo que queria experimentar ler Jules Verne e aproveitei estar envolvido com a Clockwork Portugal para o fazer agora. Na verdade li A Ilha Misteriosa há muitos anos, ainda era criança, e não me recordo de nada. Optei pel'A Volta ao Mundo em Oitenta Dias por acaso, estando nos meus planos ler igualmente o Vinte Mil Léguas Submarinas, a Viagem ao Centro da Terra e talvez regressar à Ilha Misteriosa. De referir que li uma versão ebook traduzida para inglês, sem ilustrações mas de resto com aparente boa conversão do texto e sem importantes erros de dactilografia, disponível gratuitamente no  Project Gutenberg.

A ideia de partilhar aqui um comentário sobre esta obra advém do trabalho do autor ser considerado precursor não só de muitos elementos da ficção científica actual como do Steampunk em geral. De lembrar que não deve ser considerada uma obra steampunk dado ter sido escrita precisamente na época do vapor.


A Volta ao Mundo em Oitenta Dias parte de uma premissa interessante: Phileas Fogg, na sequência de uma simples aposta (simples por acontecer na sequência de uma conversa casual, dado que por outro lado, é uma aposta séria, correspondente a metade da sua fortuna) com os seus parceiros de whist (um provável percursor do bridge), parte numa viagem à volta do globo que pretende fazer da forma mais rápida possível, o que na altura corresponderia a 80 dias. Este valor é apenas teorizado a partir da análise dos meios de transporte disponíveis, nunca tendo sido até então cumprido. É acompanhado inicialmente pelo seu criado Passpartout, que contratou pouco antes, embora ao longo da viagem o grupo vá adquirindo novos membros, nomeadamente o detective Fix - que crê que Fogg roubou um banco mas parece estar sempre impedido de o prender - e Aouda, mulher que salvam da morte em plena Índia livre do controlo inglês, que se torna a principal personagem feminina - a única com algum relevo para a história - e no entanto acaba por ter pouco impacto directo nos desenvolvimentos até ao final.

Se a premissa é, de facto, e principalmente considerando o contexto histórico em que está inserida, bastante empolgante, o resto do livro ficou aquém das expectativas. O estilo do autor é por vezes de leitura pouco estimulante e a quantidade de percalços que ocorre às personagens - tal como o facto de haver virtualmente sempre uma forma de os ultrapassar - roça o inacreditável e fez-me perder o interesse na leitura sensivelmente a partir do meio do livro.

As personagens Fogg e Passpartout são figuras interessantes e que ilustram a época em que "vivem" muito bem, sendo por vezes o melhor do livro. Phileas Fogg é um indivíduo excêntrico, rico - apesar de não se perceber ao certo como - com uma obsessão pelo cumprimento de horários e planeamentos que parece patológica e com uma aparente falta de envolvimento emocional com o mundo à sua volta que lembra o autismo. Apesar disto, tem algumas características do estereótipo britânico da altura, não só a pontualidade como a preocupação com a honra - essencialmente referente ao seu conceito feudal - e dever e o típico cavalheirismo formal. Ao contrário do que seria de esperar, mostra-se impassível perante as adversidades ao longo da viagem, sempre pronto a elaborar um novo plano que lhe permita estar dentro no calendário calculado para a volta terminar na data suposta. Passpartout é uma personagem oposta à do patrão, provavelmente propositadamente, tal é o esforço do autor em mostrar o francês como ingénuo, despassarado, de ansiedade fácil de despertar e muito má capacidade de reagir ao inesperado salvo raras excepções, mas de coragem e dedicação ao patrão inabaláveis. Apesar disto há raros momentos em que Passpartout mostra não ser de todo estúpido, tendo boas ideias tão simples que mais ninguém pensa nelas. Por vezes a leitura levou-me a pensar que este dueto pretendia ilustrar, entre outras coisas, a diferença entre pessoas de classes sociais distintas. Um rico, despreocupado mas perseverante, que vê em tudo oportunidades ou obstáculos de pouca importância e um pobre, empregado, constantemente angústiado por tudo e por nada, com uma crescente devoção pelo seu "mestre", ainda que inicialmente este lhe parecesse simplesmente tolo.

Fix, o detective que persegue os viajantes desde cedo é uma típica personagem representativa de um trabalho. Defensor da lei e crente, por seu instinto e pelas semelhanças com uma descrição, que Fogg é o ladrão de uma fortuna de um banco, persegue-o de forma implacável enquanto aguarda ter em sua posse o mandato de captura, fazendo de tudo - inicialmente - para o manter em território do império inglês. Apesar das várias ocorrências que o levam a duvidar de que Fogg possa ser um criminoso, mantém sempre a intenção de o prender primeiro e quanto antes e verificar depois se de facto se trata da pessoa certa.

Aouda é, para além de parte de um episódio interessente sobre costumes bárbaros dos povos da Índia, absolutamente inútil. É a típica "dama em apuros" que mesmo depois de salva se mantém colada a quem dela trata, se assusta com tudo e não toma atitudes perante praticamente nada. Se isto parece a descrição da maior parte das mulheres nos típicos contos de fadas embelezados que impingimos às crianças, ou até mesmo de personagens de videojogos clássicos como a Princesa Peach da Nintendo (na maior parte das suas aparições), isto provavelmente não é pura coincidência, ainda há um certo romantismo associado a este tipo de mulher que não abona nada de bom em relação à pretendida igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres. Se inicialmente se pode compreender esta personagem como uma boa demonstração do que se esperava das mulheres na época, também se pode criticar o autor por nada ter feito para combater o preconceito ou explorar a introdução de outras personangens femininas com uma nova atitude. A grande utilidade de Aouda é revelada no final - quando Phileas Fogg se apaixona por ela - em mais um momento típico em que a personagem feminina serve para trazer o romance à história e humanizar a personagem principal, até então de certa forma sobrehumano, incrível e imperturbável.

Noutro campo, o livro passa também a ideia de que o autor seria algo xenófobo. As várias culturas asiáticas e a americana são descritas muitas vezes com aparente desdém, sendo os povos "olhados de cima" pelas personagens europeias como pouco civilizados, bárbaros, atrasados. De acordo com esta ideia, optou por mostrar situações que ajudam a convencer o leitor do mesmo, sendo o exemplo do ritual a que Aouda ia ser sujeita apenas o mais gritante. Mais uma vez, tal como falei acima, pode argumentar-se que esta era precisamente a visão que os europeus tinham do resto do mundo no séc. XIX. Mas para uma obra em que, pela forma como foi escrita, nos é dada pouca descrição directa do que se passa nas culturas com que as personagens vão contactando, vale a pena notar este pendor, em especial quando a leitura é tão frequentemente aconselhada para crianças e jovens. Uma outra situação que foi para mim de especial interesse foi o contacto com o sufrágio eleitoral na America. A votação é descrita como uma confusão de gente que não se entende e acaba com uma cena de pancada. Proctor, a única personagem participante nesta situação que nos é dado a conhecer de perto, é um homem gozão, irritável e de cabeça quente. Seria esta a visão que os velhos europeus tinham do país que se formava ou desta forma de eleger líderes ou será a opinião do autor a permear a história?

Há uma outra ideia que aparece ao longo de todo o livro que é inescapável para este comentário, a demonstração do poder do dinheiro. Phileas Fogg gasta uma fortuna na sua viagem e através dela consegue comprar veículos e contratar condutores em qualquer momento e lugar, convencer os comandantes dos navios a avançar o mais depressa possível, pagar fiança, estadia, roupa e muito mais. O apogeu desta demonstração ocorre perto do final, quando encontra finalmente uma personagem que não se deixa comprar. Se inicialmente compra apenas a viagem num navio nos termos do capitão inabalável, cujo destino não convém ao calendário apertado de Fogg, em menos de 2 dias já subornou toda a tripulação, prendeu o dito capitão na cabine e assumiu controlo da viagem. Para evitar revelar mais ainda da situação, fico-me por dizer que isto não é o final deste episódio e que mais dinheiro seria gasto para cumprir calendário.


Se inicialmente a curiosidade em seguir tão estranhas personagens e a esperança de ver uma grande parte do mundo como era no séc. XIX fazem o leitor querer continuar e atentar nos pormenores, eventualmente a escrita desprovida de beleza e o peso dos temas e povos que mereciam outro tratamento tornam a segunda metade da obra por vezes mais um trabalho que um prazer.

Por outro lado, concordo plenamente com a inclusão deste livro nas obras precursoras do steampunk. De facto pela sua leitura consegue perceber-se as possibilidades e limitações das pessoas na época, encontram-se descrições de locais e em especial meios de transporte e comunicação e, acima de tudo, permite compreender o tempo da altura. Para perceber obras steampunk e, em especial, para as escrever, é preciso ter uma óptima noção de quanto demoram certos processos, viagens, comunicações. Ao contrário dos dias de hoje, por exemplo, os impedimentos à transmissão de informação na altura adicionavam os importantes limites dos meios de comunicação à ubíqua burocracia.

Não considero esta obra um dos chamados clássicos de leitura obrigatória e aconselho-a essencialmente a fãs de ficção de época com um leve toque de ficção científica e a fãs de steampunk que queiram apreender os conceitos que referi acima, tal como a aspirantes a autor steampunk. Guardo a minha opinião sobre o autor e a sua obra no geral para depois de ter lido muito mais.


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Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

O que é um Almanaque?


Um almanaque ou Almanach (presume-se que a palavra tenha origem na palavra árabe al-manākh) é uma publicação, originalmente anual, que reúne um calendário com datas das principais efemérides astronómicas, como os solstícios , equinócios e as fases lunares, mas desde cedo os almanaques passaram a incluir outras informações específicas de vários campos do conhecimento. Existem ainda hoje Almanaques Astronómicos, Náuticos, Agrários e outros de carácter mais geral.

O primeiro almanaque a ser publicado em Portugal foi o Almanach Perpetuum de Abraão Zacuto, impresso em Leiria, circa 1496. Tal como todos os almanaques dessa época, também nesse constava principalmente um calendário assinalado com as efemérides astronómicas, os mercados e as festividades religiosas. Alguns possuíam mesmo endereços postais e as nomeações feitas pelas autoridades para cargos públicos.



Algumas destas publicações prestavam um serviço público de espalhar informação sobre alianças e casamentos entre os nobres ou elementos mais abastados da sociedade, para que todos estivessem devidamente informados das alterações de estatuto, evitando assim "deslizes sociais" de etiqueta.

No século XIX, sobretudo na segunda metade, os Almanaques prosperaram, aumentando o número de publicações do género. Ganharam relativa importância, principalmente para as populações que não tinham acesso regular às novidades científicas, tecnológicas e mesmo novidades políticas e sociais. De acordo com o público-alvo, podiam ser um pequeno folheto, dirigido à população rural, e dos arredores das cidades, ou, então, aumentar o número de páginas, tornando-se num instrumento de divulgação de conhecimentos quer para um público geral, mais burguês e citadino, quer junto de algumas camadas sociais diferenciadas por ideais políticos, religiosos ou por outros interesses muito específicos.


Em Portugal, em 1899 , surge o Almanach Bertrand, tornando-se imensamente popular em Portugal e no Brasil, no início do século XX, tendo sido publicado até 1969. Actualmente, o Almanaque Borda d'Água, surgido em 1929, é o mais vendido em Portugal.


No Brasil, um dos almanaques mais conhecidos é o Almanaque do Pensamento, editado desde 1912, comemora este ano o seu primeiro centenário.

E que tipo de artigos constavam nestes almanaques?

Nestes almanaques de carácter mais generalista como o Almanaque Bertrand e o Almanaque Lello, tinhamos o típico calendário com os acontecimentos mais importantes a nível astronómico, social e económico. Depois, conforme o público ao qual a publicação era dirigida: artigos científicos, entrevistas a escritores da época ou biografias, elogios a personalidades que tinham falecido recentemente (no Almanaque Bertrand de 1902, tem um artigo dedicado às exéquias fúnebres da Rainha Vitória), passatempos (adivinhas, puzzles, palavras cruzadas e desafios matemáticos), dicas e conselhos para o quotidiano, anedotas, caricaturas, e claro, publicidade.

O Almanaque Lello tinha a particularidade de ter um mapa celeste com os principais corpos celestes assinalados.

















Para mais informações: 
Wikipédia
Almanaque Steampunk 

Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

Diários Steampunk, Episódio 4 - The Difference Engine


Estamos de volta com o quarto episódio dos Diários Steampunk, desta feita dedicado a uma das obras emblemáticas do género, "The Difference Engine" (1990) de Bruce Sterling e William Gibson, dois escritores conhecidos desde os anos 80 pelos seus trabalhos cyberpunk. Este livro explora o que teria acontecido se Charles Babbage tivesse terminado o seu projecto pioneiro de construção de uma máquina diferencial - um computador mecânico - no século XIX, efectivamente antecipando a era da informação para coincidir com a era do vapor.

Como já se tornou hábito, a conversa em torno deste livro foi muito produtiva, resultando em quase uma hora de gravações, pelo que repetimos a fórmula do segundo episódio e selecionámos apenas as melhores partes. Infelizmente, tivemos um problema técnico com o foco na parte final do vídeo. Esperamos que não afecte a visualização do vídeo.

Uma vez que este é um livro muito complexo e aberto a interpretações, iremos acompanhar o vídeo com alguns artigos, que serão partilhados em breve.

Podem acompanhar a discussão deste novo episódio (e não só) no grupo do Goodreads dos Diários Steampunk.

Segunda-feira, 2 de Julho de 2012

Giveaway Stephen Hunt - Resultados


  (Página Oficial) (Goodreads)

Mais um passatempo, mais um grande sucesso... desta vez passamos a barreira das 70 participações (sendo apenas 47 válidas), um muito obrigada a todos os que participaram!

Desta vez tínhamos 2 livros do autor Stephen Hunt para oferecer, em parceria com a Editora Saída de Emergência.


Esta semana foi o dia de sorteio e os felizes contemplados foram o Rui e o Bruno, que entretanto já foram contactados por email e estão ansiosamente à espera do livro.
Fiquem atentos que não tarda nada teremos mais surpresas!